Administração Hospitalar

   Racionamento na área de saúde
Adriano Londres, presidente do Sindicato dos Hospitais, Clínicas
e Casas de Saúde do Rio de Janeiro

 

A crise de energia tem mobilizado toda uma nação nos últimos meses. Talvez seja o momento oportuno para analisarmos uma outra séria crise de natureza estrutural que ameaça nossos cidadãos. Refiro-me à crise da saúde privada, e, para facilitar a compreensão da questão falaremos a partir de determinadas terminologias que se tornam comuns, como geração, racionamento e escuridão, uma vez que o segmento da saúde também está perdendo energia.

A questão da geração também é, sob vários prismas, algo extremamente sério na área de saúde. Ao contrário do setor de energia, que tem dificuldade em gerar oferta na proporção de sua demanda. Contrário ao benefício da redução de custos que a tecnologia gera em outros segmentos da economia, na área da saúde vivemos com o paradoxo da tecnologia, onde se vê o efeito contrário do aumento de custos, em grande parte pela utilização excessiva e pouco criteriosa da tecnologia médica. Portanto, o desequilíbrio entre oferta e demanda, por motivos distintos, causa danos a ambos os setores.

Existe ainda o problema do que efetivamente geramos no atual modelo do sistema privado de saúde. Os altos custos também têm relação com o fato de que pouco se gera de ações preventivas e de promoção à saúde. O atual modelo, que tem a doença como seu principal pilar, tende a nos levar para a mesma situação de estrangulamento hoje enfrentada na esfera energética.

A aquisição de equipamentos na Ucrânia, recentemante divulgada no bojo dos erros em relação à questão de energia, sintetiza o mesmo tipo de falha no setor privado de saúde. Também aqui vemos a aquisição de serviços ser feita exclusivamente com base no preço, independente da sua qualidade; é isto o que faz grande parte dos planos de saúde em suas negociações com prestadores de serviços médico-hospitalares, na medida que apenas consideram a variável financeira.

O racionamento no setor de saúde, em prática há pelo menos cinco anos, através da política por parte dos planos de saúde de atrsos crescentes, descontos unilaterais, reduções de tabelas, dificuldade de acesso e direcionamento de procedimentos, entre outras, cada vez mais coloca em risco a qualidade dos serviços prestados. O resultado líquido desta política, além de não ter reduzido custos de forma alguma, uma vez que efetivamente não controlou a freqüência de utilização por parte do usuário, tem levado os prestadores de serviço médico-hospitalar a uma situação insustentável.

Infelizmente, ao invés da criteriosa e sustentável busca da racionalização dos serviços, já vemos na área da saúde o tão temido e danoso racionamento que chega aos nossos lares, daqueles que realmente pagam o sistema de saúde na eventualidade de deles precisarem.

Enquanto no setor energético se busca evitar o apagão, no setor de saúde temos como única alternativa de sobrevivência sair de um longo período de crescente escuridão. Refiro-me à escuridão no campo das idéias que, alimentadas por um imediatismo intoxicante, vem produzindo ações sem reflexões que, ao invés de corrigir, acumulam e aprofundam erros estruturais e circunstanciais, nos levando a uma situação de caos absoluto.

Portanto, faz-se urgente acendermos nossas luzes internas para revertermos a política de geração de doenças, de ausência de controles e critérios de utilização, de racionamento sobre os prestadores de serviços médico-hospitalares e, portanto, de riscos crescentes sobre a qualidade dos serviços. Afinal, o custo de uma vida é infinitamente maior do que o da sobretaxa que tanto tem nos assombrado.

   

 

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