Fonoaudiologia

   O que a descoberta do FOXP2 traz para a Fonoaudiologia

Estagiárias de Fonoaudiologia Nefeg:
Camila Ribeiro Monteiro
Fernanda Gonçalves de Oliveira
Fonoaudióloga coordenadora - Nefeg:
Elizabeth Gonçalves Ribeiro


Existem várias teorias de aquisição de linguagem, e o fonoaudiólogo, como profissional que trabalha com distúrbios da linguagem, deve ter claro para si em qual a teoria baseia a sua prática.

Citaremos resumidamente as principais teorias.

O estruturalismo de Saussure

Para Saussure a linguagem é a língua + fala, sendo a língua um sistema abstrato composto por elementos significativos inter-relacionados. Saussure estuda as regras que não são intrínsecas ao falante, então o falante não dominaria tais regras. Saussure estudou os aspectos sociais da língua, o signo lingüístico.

O comportamentalismo de Skinner

O objetivo de Skinner é estudar as funções mentais inferiores. Para ele, a linguagem é mais um comportamento do ser humano, e sua aquisição se dá através do reforço positivo ou negativo. Nessa abordagem, as variáveis ambientais é que são determinantes, uma vez que o sujeito não possui nenhuma propriedade interna que possibilite o desenvolvimento da linguagem.


O inatismo de Chomsky

Para Chomsky a língua é inata, é geneticamente determinada; por esse motivo só o ser humano é capaz de falar.

Chomsky propõe que, independente do meio social, a língua vai se desenvolver, ou seja, a exposição da pessoa à fala do outro (sujeito) ativaria os mecanismos lingüísticos inatos.

Para ele, a organização da linguagem em estruturas profundas seria compartilhada por todas as línguas humanas, constituindo os universais lingüísticos. Aprender a língua é decorrência natural de uma dotação prévia, como o ato de andar.


O construtivismo de Piaget

Piaget valoriza o estudo da evolução do raciocínio lógico matemático. Para ele. a linguagem está subordinada ao desenvolvimento cognitivo.

É na interação motora do sujeito com seu meio que estruturas cognitivas se desenvolvem.

Para Piaget, os indivíduos nascem como uma capacidade inata, a capacidade de aprender.


O sócio-interacionismo de Vygotsky

Para Vygotsky, a linguagem é construída através de sua interação com o mundo e com os adultos. O desenvolvimento da linguagem depende da qualidade da interação.

Nessa visão, ocorrem trocas entre o par dialógico (adulto e criança), e é através dessa interação que a linguagem se estrutura.

Em Vygotsky a linguagem assume uma função principal, pois é através dela que o pensamento se estrutura.

Como citado na reportagem do jornal "O Globo" de 4 de outubro, há 40 anos atrás o lingüista Noam Chomsky levantou a possibilidade da linguagem humana ter origem genética, possibilidade que hoje foi comprovada com a pesquisa do genoma e a descoberta do FOXP2 (um dos genes relacionados à linguagem). E ainda mais importante que isso é a inferência feita pelos pesquisadores de que um distúrbio raro de linguagem seria causado por um erro na seqüência das letras do FOXP2.

Relembrando o histórico das teorias de aquisição, constatamos que Piaget e Vygotsky aproximam-se discordando de Chomsky. Para eles o meio será o grande contribuinte, ou melhor, o grande construtor dos aspectos referentes à linguagem e a cognição. Porém, entre si Piaget e Vygotsky afastam-se, à medida que enxergam o meio de maneira bastante diferente, além de verem de forma divergente o binômio linguagem e cognição.

Vale lembrar que, embora se discuta sobre a relevância do meio e do outro (sujeito) para os aspectos de aquisição de linguagem, não há o que se discutir acerca das predisposições químicas cerebrais, comuns a todos os homens e impressas nos códigos genéticos da humanidade.

Hoje, com o avanço da ciência, podemos afirmar que tais predisposições propostas por Chomsky existem desde sempre, o que nos remete ao fato de que cada profissional que trabalha com a linguagem, independente de sua base teórica, deva repensar no que essa descoberta influenciará sua prática, levando a grandes reflexões sobre o seu "fazer clínico". Estes profissionais não podem desvalorizar os pressupostos teóricos existentes, mas devem sim refletir sobre o impacto dos novos achados sobre conhecimentos já adquiridos, que não devem nunca ser cristalizados. A busca do novo aprimora o velho e nunca é uma questão de opção. A ciência vive corrigindo-se a si mesma; nela não existem idéias "definitivas": cada conceito está sujeito aos desafios que representam as novas descobertas.

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