Pediatria

   Anemia da Prematuridade: como eu trato
Maria Amélia Sayeg Porto, pediatra

A anemia da prematuridade é freqüentemente encontrada em berçários de alto risco, e sua incidência é alta em conseqüência da melhoria dos cuidados neonatais e maior sobrevida dos prematuros de muito e extremo baixo peso.

A concentração de hemoglobina dos recém-nascidos a termo varia de 16,7 a 17,9 g/dl e tende a diminuir, alcançando, entre a 8ª e a 12ª semanas de vida, valores de 11,4+/-0,9 g/dl. Esta grande variação é chamada de anemia fisiológica, ocasionada pela diminuição dos níveis de eritropoietina, reticulócitos e atividade eritróide medular. No bebê prematuro, a diminuição da hemoglobina é muito maior, e chega a 7 g/dl já na 6ª semana. A anemia da prematuridade é multi-fatorial, resultando, além dos fatores descritos na anemia fisiológica, também devido a perdas sangüíneas iatrogênicas, deficiências nutricionais (ferro, vitamina E e ácido fólico), deficiência dilucional devido ao ganho ponderal, menor tempo de vida das hemácias e complicações clínicas e cirúrgicas.

Os níveis de eritropoietina nos prematuros parecem estar diminuídos diante de anemia. O sítio de produção da eritropoietina é determinado pela idade pós-concepcional. Os rins só serão o sítio principal no final do 3º trimestre de gravidez ou no 1º mês de vida; até então, a eritropoietina é basicamente produzida no fígado, cujos sensores para hipoxia são menos sensíveis. E embora apresentem níveis baixos de eritropoietina, poucos reticulócitos circulantes e hipoplasia eritróide da medula óssea, possuem no sangue e medula óssea progenitores eritróides sensíveis à eritropoietina. Sugeriu-se então, que o uso de eritropoietina recombinante humana diminuiria o número de transfusões que habitualmente são necessárias. Os RNs que mais se beneficiariam seriam os abaixo de 30 semanas. Ensaios clínicos mostraram, até o momento, controvérsia quanto à dose, que varia de 300 a 1200 U/kg/semana; à duração, que pode chegar a 6 semanas; o início mais ou menos precoce; e a via de administração, sendo que a via subcutânea aparentemente tem melhor resposta que a endovenosa. A segurança ainda é uma incógnita, pois não é conhecido se existe produção de anticorpos específicos; porém, alguns efeitos colaterais foram descritos, como a neutropenia, a hipertensão arterial e convulsão.

A perda sangüínea iatrogênica pode variar de 30 a 300% do volume circulante total de eritrócitos ao nascimento, com um volume médio de perda de 0,8 a 3,1 ml/Kg/dia nas primeiras semanas de vida.

A deficiência de ferro é um importante fator etiológico após 2 meses de vida, quando as reservas intra-uterinas diminuem. A suplementação oral de ferro deve ser de 2 a 3mg/Kg/dia para prematuros com peso de nascimento > 1000g, de 3 a 4 mg/Kg/dia para aqueles com peso < 1000g, a partir de 30 dias; quando dobrarem o peso de nascimento, esta dose pode ser aumentada até de 6mg/Kg/dia. Recomenda-se a suplementação concomitante de polivitamínicos e vitamina C.

Os RNs com peso <1500g são os que apresentam risco de desenvolver deficiência de vitamina E, pela dificuldade de passagem transplacentária, de absorção intestinal e baixas reservas corporais; porém, o fato de receberem 40 ml de leite/dia já poderá suprir suas necessidades diárias. Recomenda-se a suplementação de 25UI/dia de vitamina E e 50 ug/dia de ácido fólico até 6 a 8 semanas de vida, ou até completar 40 semanas de idade pós-concepcional (esta não consegue evitar a queda da hemoglobina).

A anemia dilucional decorre do processo de crescimento somático, pois à alta, pode ter triplicado seu peso e volume sangüíneo, mas a eritropoiese medular não é capaz de produzir massa eritrocitária proporcional. Existe ainda uma maior taxa de destruição eritrocitária; o tempo de vida médio de uma hemácia no período neonatal é de 77 a 98 dias, enquanto o da adulta é de 120.

A transfusão de concentrado de hemácias, na dose de 10 a 15 ml/Kg, em uma taxa de infusão de 2 horas, é a terapia padronizada para o prematuro com anemia sintomática. As indicações para transfusões no berçário determinam-se entre o grupo de neonatos de desenvolvimento estável pelo fato de evidenciarem ou não sintomatologia.

Indicações de Transfusão de Concentrado de Hemácias (Shannon, 1995):

Hematócrito < 20%

assintomáticos com reticulócitos < 4%.

Hematócrito < 30%

suplementação < 35% de O2 no Oxyhood;
CPAP nasal ou ventilação mecânica com pressão média de vias aéreas < 6cm H2O;
episódios significativos de apnéia ou bradicardia (> 9 episódios em 12 horas ou 2 episódios em 24 horas, necessitando de ventilação com ambu e máscara) em uso de metilxantinas;
freqüência cardíaca > 180 bpm ou freqüência respiratória > 80irpm por mais de 24 horas
ganho ponderal <10g/dia por 4 dias recebendo TC>100cal/Kg/dia;
submetido a cirurgia.

Hematócrito < 35%

suplementação > 35% de O2 no Oxyhood
ventilação mecânica com pressão média de vias aéreas > 6-8 cm H2O

Não transfundir

apenas para repor sangue colhido para testes laboratoriais;
apenas por hematócrito baixo

No acompanhamento ambulatorial da anemia da prematuridade, devem ser utilizados os mesmos critérios clínicos e laboratoriais da avaliação. A suplementação de ferro oral é prescrita até o final do 2º ano de vida e a transfusão de concentrado de hemácias é determinada também pela correlação das repercussões clínicas e hemodinâmicas.

 

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