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Como avaliar o crescimento de prematuros
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Maria
Amélia Sayeg Porto, pediatria
Os
bebês prematuros, especialmente os de extremo baixo peso, estão quase
sempre menores que seus irmãos ou abaixo do determinado pelo controle
ideal. Às vezes parecem ser mal nutridos, desnutridos, e até lembram crianças
negligenciadas.
O tamanho e o peso do filho prematuro é a primeira e constante preocupação
de muitos pais, maior inclusive que seu desenvolvimento neurológico. Em
recente depoimento, uma mãe de um bebê de 560 gramas e 24 semanas nos
diz: "Eu ainda prendo a respiração toda vez que vou à consulta pediátrica
e meu filho sobe na balança. Parece ser um desafio final para nós pais.
(...) 18 meses depois dei à luz uma menina a termo com 3 kg, e não demorou
muito ambos estavam usando o mesmo tamanho de roupas e fraldas. (....)
Eu ainda tento não ficar preocupada sobre seu peso, mas ele vai ficando
mais velho e aparentemente muito atrás de seus colegas, ele realmente
está atrás no tamanho e no seu desenvolvimento físico (...)" (Laura Willians)
As necessidades nutricionais desses bebês são maiores para sua total recuperação,
mas a aceitação desta maior oferta nutricional pode estar comprometida
com distúrbios neuro-motores, orais e clínicos como a BDP.
Existem muitos fatores além da prematuridade que podem afetar o tamanho
do bebê, ao nascimento e depois. Entre os mais conhecidos está o crescimento
intra-uterino retardado, mas não podemos esquecer do potencial genético
desta criança, pois pais baixos tendem a ter filhos baixos.
Sabemos que crianças com mais de 1500 gramas ao nascimento geralmente
não apresentam grandes problemas com seu crescimento posterior, exceto,
é claro, os pequenos para a idade gestacional (PIG). Entretanto, crianças
extremamente prematuras são muito menores na época do nascimento e possuem
maiores complicações neonatais clínicas. Estes bebês são mais difíceis
de serem alimentados adequadamente logo após o nascimento, apresentam
certa intolerância à nutrição parenteral, perdem peso mais precocemente
(e não só às custas de água, mas de massa corpórea), e apesar de na 2a
ou 3a semana recuperarem seu peso inicial, crescem mais lentamente e conseqüentemente
têm uma posição baixa na curva de crescimento. Bebês
intra-útero crescem muito rapidamente no último trimestre, portanto é
aqui que se estabelece uma grande diferença entre esses dois tipos de
bebês.
Caso esse bebê, além de extremamente prematuro, também seja PIG e instável
clinicamente, será uma criança que estará muito abaixo dos padrões "normais"
do crescimento.
Alguns
grupos vão apresentar padrões próprios de crescimento, como as crianças
com Síndrome de Down, de Turner e outras anomalias, e também aquelas que
nasceram prematuras.
Quando estamos diante de um bebê prematuro, necessitamos analisar não
só seu desenvolvimento, mas sua condição clínica e seu crescimento. Precisamos,
então, conhecer que características são próprias a este grupo de crianças.
A) Idade corrigida:
É a idade pós-natal menos o número de semanas que faltou entre o seu nascimento
prematuro e o referencial de 40 semanas, ou seja, é a diferença entre
40 semanas e a idade gestacional ao nascimento.
Deve-se corrigir o peso até 24 meses de idade corrigida, o comprimento
até 42 meses e o perímetro cefálico até 18 meses, quando não haverá mais
diferença estatisticamente significativa entre idades corrigida e cronológica.
Quando usamos apenas a idade cronológica, diagnosticamos um grande número
de crianças erroneamente ditas mal nutridas ou desnutridas.
B) Crescimento intra-uterino retardado:
Estamos diante de um RN PIG quando este possui peso de nascimento abaixo
do percentil 10 ou -2 desvios-padrão da média. O RN PIG vai apresentar
uma diferença inicial em relação ao AIG que provavelmente vai perdurar
por toda vida. Uma forma simplificada e de fácil obtenção é através do
índice ponderal, que é calculado a partir do peso e comprimento do nascimento.
IP= peso(g) x 100 / comprimento(cm)3 Normal= 2,32 a 2,85
A única observação é que, no PIG simétrico, este índice pode estar normal.
C) Fase do Crescimento:
Fase 1 Retardo do crescimento: Todos os prematuros apresentam
perda de peso logo após o nascimento. É maior quanto menor for o peso,
a idade gestacional e a severidade da patologia neonatal inicial.
Fase 2 Transição: É marcada por iniciar um lento
e discreto aumento do perímetro cefálico (o crescimento cerebral é priorizado),
depois do peso e por último do comprimento.
Fase 3 Catch-up ou velocidade de recuperação: É caracterizada
por um rápido aumento de peso, comprimento e perímetro cefálico, com a
velocidade de crescimento acelerada ultrapassando a intra-uterina e a
da criança a termo. Esta fase é máxima entre 36 e 44 semanas. O ganho
ponderal é maior que o estatural, levando o prematuro a apresentar diferentes
proporções corpóreas quando comparadas às do bebê a termo. 85% das crianças
prematuras têm catch-up e estarão nos padrões normais dos gráficos de
crescimento por volta de 2 anos. Isso não acontecerá caso o bebê esteja
muito abaixo do peso com 40 semanas, e apresente problemas clínicos crônicos
como a BDP, a qual tem uma taxa metabólica aumentada e necessita de mais
nutrientes. Além disso, para elas pode ser muito difícil comerem o quanto
necessitam, e o apetite pode estar diminuído. Alguns prematuros nunca
desenvolvem um bom apetite e precisam ser ajudados a comer, enquanto outros
preferem pequenas e contínuas refeições.
Em recente avaliação de prematuros através da prega cutânea, perímetro
braquial e índice ponderal, constatamos que esse catch-up é máximo até
3 meses de idade corrigida, quando devemos dar todas as condições ideais
ambientais e nutricionais. Resultados semelhantes foram encontrados por
Smith & cols.
Fase 4 Homeorrexe: A última fase é caracterizada por velocidade
de crescimento comparável (paralelo) ao das crianças "normais".
D) Avaliação Nutricional:
A avaliação nutricional engloba, para nós pediatras, também o que está
sendo oferecido ao bebê, isto é, se é adequado e suficiente. As necessidades
nutricionais são diferentes para cada etapa de vida do PT, e podem ser
divididas em 3 períodos:
1º período Transicional: vai do nascimento a 7 dias,
e objetiva prover nutrição suficiente endovenosa e oral para prevenir
déficits nutricionais e catabolismo;
2º período Crescimento estável: estende-se da estabilização
clínica até a alta hospitalar, e tem como objetivo manter taxa de retenção
de nutrientes similar à intra-uterina. De acordo com Lubchenco & cols.,
entre 24 e 36 semanas de gestação, um feto que cresce no percentil 50
ganha 14,5g/Kg/dia; no percentil 10, cresce 12,2g/Kg/dia, e no 90, esta
taxa é de 15,6g/Kg/dia.
3º período Pós-alta: Da alta até o final do 1o ano
de vida, objetiva prover nutrientes para um adequado catch-up.
Apropriadas ingestas de nutrientes são recomendadas por vários comitês
de Nutrição. Citamos abaixo as recomendações da Sociedade Pediátrica Canadense,
específicas para cada período.
|
Macronutrientes
|
|
|
Transicional
|
Estável
|
Pós-alta
|
|
Água,
ml/kg
|
variável
|
120
- 200
|
120
- 160
|
|
Energia,
Kcal/Kg
|
70
- 80
|
105
-135
|
100
- 120
|
|
Proteína
g/Kg
|
1,0
- 3,0
|
3,5
- 4,0 (<1000g)
3,0 - 3,6 (>1000g)
|
2,2
|
|
Gordura,
g/Kg
|
0,5
- 3,6
|
4,5
- 6,8
|
4,4
- 7,3
|
|
Carboidrato,
g/Kg
|
5,0
- 20,0
|
7,5
- 15,5
|
7,5
-15,5
|
|
|
|
|
|
|
Minerais
|
|
|
Transicional
|
Estável
|
Pós-alta
|
|
Cálcio
mmol/Kg
|
1,
5 - 2,0
|
4,0
- 6,0
|
6,3
(leite materno)
9,4 (fórmula)
|
|
Fósforo,
mmol/Kg
|
1,0
- 1,5
|
2,5
- 3,8
|
3,4
(l. materno)
8,8 (fórmula)
|
|
Magnésio, mmol/Kg
|
0,20
- 0,25
|
0,2 - 0,4
|
0,2 - 0,6
|
|
Sódio,
mmol/Kg
|
1,0
- 3,0
|
2,5
- 4,0
|
2,0
- 3,0
|
|
Cloro,
mmol/Kg
|
1, 0 - 3,0
|
2,5
- 4,0
|
2,0 - 3,0
|
|
Potássio,
mmol/Kg
|
2,5
- 3,5
|
2,5
- 3,5
|
2,5
- 3,5
|
|
Ferro,
mg/Kg
|
0
|
3,0 - 4,0 (<1000g)
2,0 - 3,0 (>1000g)
|
3,0
- 4,0 (<1000g)
2,0 - 3,0 *(>1000g)
|
|
Zinco,
umol/Kg
|
6,5
|
7,7-12,3
|
15,0
|
| Cobre,
umol/Kg |
1,1
- 1,9
|
1,1
- 1,9
|
1,1 -1,9
|
| Selênio,
umol/Kg |
0,04
- 0,06
|
0,04
- 0,06
|
0,04
- 0,06
|
| Crômio,
umol/Kg |
1,0
- 1,9
|
1,0
-1,9
|
1,0
- 1,9
|
| Manganês,
mmol/Kg |
10
- 20
|
10
- 20
|
10
- 20
|
| Molibdênio,
mmol/Kg |
2,0
- 4,0
|
2,0
- 4,0
|
2,0
- 4,0
|
|
Iodo, mmol/Kg
|
0,20
|
0,25
- 0,50
|
0,25
- 0,50
|
|
|
|
Vitaminas
|
|
|
Transicional
|
Estável
|
Pós-alta
|
| D,
UI |
40
-120 (>1000g)
40-260 (>1000g)
|
400
|
400
|
| A,
ug/Kg |
450
|
450
(<1000g)
200-450 (>1000g)
|
400
|
|
E, mg/Kg |
0,5
- 0,9 0
|
0,5
- 0,9
|
0,5
- 1,0
|
| C,
mg/Kg |
6
- 10
|
6 - 10
|
20
|
| B1,
mg/Kg |
0,04
- 0,05
|
0,04
- 0,05
|
0,05
|
| B2,
mg/Kg |
0,36
- 0,46
|
0,36
- 0,46
|
0,05
|
| B6,
mg/g de proteína |
0,015
|
0,015
|
0,015
|
| B12,
ug |
0,15
|
0,15
|
0,15
|
| Folato,
ug |
50
|
50
|
25
|
| Biotina,
ug/Kg |
1,5
|
1,5
|
1,5
|
| Ac.
pantotênico |
0,8
-1,3
|
0,8
-1,3
|
0,8
-1,3
|
E)
Gráfico a ser utilizado:
O gráfico a ser utilizado é o mais acessível e conhecido por nós, como
o NCHS (National Center for Health Statistics) adotado pelo Ministério
da Saúde em 1985, e sua grande qualidade é possuir como parâmetro de tendência
central e dispersão os percentis, tanto para peso quanto para estatura
e perímetro cefálico. Os gráficos feitos com crianças prematuras, como
os de Babson, são adequados apenas para populações específicas e locais;
afinal, todos foram elaborados a partir de um número pequeno de crianças
e, portanto, não devem ser utilizados como padrão para todo nosso universo
de prematuros.
F) Cálculo do alvo genético:
A definição de uma estatura como normal leva em consideração a estatura
dos pais e deve situar-se dentro de uma faixa-limite, que fica em torno
da estatura-alvo. Esta faixa de normalidade pode ser obtida utilizando-se
cálculo numérico a partir da estatura dos pais.
|
Para
os meninos: |
(estatura
pai) + (estatura mãe+ 13 cm) + / - 8,5 |
| |
|
2
|
| |
|
|
|
Para
as meninas: |
(estatura
mãe) + (estatura pai - 13 cm) + / - 8,5 |
| |
|
2
|
A
obtenção do crescimento e catch-up foi analisada por Hack em 363 crianças
com peso <1500 g, de 40 semanas a 8 anos de idade. Catch-up acima do percentil
3 (p3) ocorreu entre 40 semanas e 8 meses, entre 8 e 20 meses e até 8
anos de idade. Com 40 semanas, 54% estavam abaixo de p10 para o peso e
60% para altura; com 8 meses, 33%, e 22%, e com 8 anos, apenas 8%. Crianças
PIG possuem níveis mais baixos de catch-up. Esse trabalho nos mostra que
o catch-up pode continuar até os 8 anos, o que tem implicações quando
comunicamos aos pais o potencial de crescimento de seus filhos.
Hirata e Bosque, em 1998, descreveram o crescimento de 32 adolescentes
extremamente prematuros, com peso <1000 g e idade gestacional de +/-27
semanas, do nascimento até 12-18 anos; destes, quando apenas 6% ficaram
abaixo de p10 para altura e esses possuíam alvo genético baixo. 45% de
todas essas crianças cresceram mais rapidamente que o normal entre 8 e
12-18 anos. A média da altura, peso e perímetro cefálico desses adolescentes
estavam no percentil 50 (NCHS), apesar de algumas crianças estarem em
percentis mais baixos antes dos 8 anos. A altura das meninas era maior
ou igual à de suas mães, e a dos meninos estava no mesmo percentil ou
maior que a de seus pais.
Já Kitchen, em 1980, observou que, aos 8 anos, mais de 16% de crianças
com peso < 1500g estavam abaixo de p10. Em 1996, Saigal notou que 28%
de adolescentes extremamente prematuros, de 12-16 anos, estavam, abaixo
de p10.
Nossa experiência nos ambulatórios de RN de risco do Hospital Servidores
do Estado e na Maternidade-Escola da UFRJ é semelhante. Para o peso, entre
prematuros com <1500g e com 40 semanas, 88% estavam abaixo de p10; aos
12 meses, permaneciam 35%, aos 24 meses ainda 22% abaixo de p10 e, aos
5 anos, 12% dos prematuros estavam abaixo de p3. Para a altura os prematuros
ficaram muito abaixo até os 6 meses, mas aos 24 meses, apenas 10% encontravam-se
abaixo de p10 e, aos 5 anos, 15%. Já Sonia Lopes, também no HSE, observou
em adolescentes extremamente prematuros (com peso<1000g), que 30% entre
8 e 11 anos ainda estavam abaixo de p10, confirmando ser este o grupo
de maior risco.
Finalizando, gostaria de relembrar os sinais de alerta na avaliação do
crescimento:
1. Ganho ponderal insuficiente ou perda maior que 10% após a alta;
2. Aumento do perímetro cefálico proporcionalmente menor que o peso e
o comprimento;
3. Falta de catch-up expressivo até o final do 1o ano;
4. Aumento do perímetro cefálico maior que 1,75cm por semana.
A continuidade de uma determinada velocidade do crescimento, ou seja,
a manutenção de um canal específico do crescimento nos obriga estar em
constante vigilância nutricional e clínica de nosso pequeno ou extremamente
pequeno paciente. Devemos sempre enfatizar, principalmente para os pais,
que o importante não é o quão grande e sim o quão saudável ele é e será,
permitindo que ele tenha condições de alcançar um adequado desenvolvimento
global.
"Para Conor e seu futuro, há um longo caminho, então eu penso que esta
PEQUENA coisa chamada TAMANHO não vai impedí-lo de fazer tudo o que PLANEJA
e DESEJA fazer no futuro" (Laura Willians)
Lubchenco, L.O. & cols. Intrauterine growth as estimated from live-born
birth weight data at 24 to 42 weeks of gestation. Pediatrics 1963;32:793-800.
Nutrition Committee, Canadian Paediatric Society. Nutrient needs and
feeding of premature infants. Canadian Medical Association Journal 1995
jun 1;152(11):1765-85.
Hack, M e cols. Catch-up growth during childhood among very-low-birth-weight
children. Arch Pediatr Adolesc Med 1996;150:1122-1129.
Regnier, R. A. & cols. Will my baby catch-up prematurily and growth?
1999. URL:http://www.comunity.com/premature/child/growth/catch-up.html.
Hirata, T. e Bosque, E. When they grow-up: The growth of extremely low
birth weight (<1000g) infants at adolescence. J. Pediatr. 1998;132:1033-5.
Porto, M. A. Crescimento de crianças de risco. In: Novo manual de Follow-up
do Recém-Nascido de Risco. Comitê de Follow-up de RN de Risco. Sociedade
de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro. Serviço de Informação Científica
Nestlé 1995:28-34.
Porto, M.A. O prematuro com retardo do crescimento intra-uterino. In:
Follow-up do Recém-Nascido de Risco.Rio de Janeiro, MEDSI, 1999,17-26.
Willians, L. Growing anxiety: A mother concern for her micropremies.
1998. URL: http://www.comunity.com/premature/child/growth/coner.html
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