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Campanhas contra as drogas não faltam: na televisão, no rádio, em revistas e outdoors. Mas sempre restam algumas dúvidas simples do público, principalmente adolescente. Pensando nisso, o Hospital da Galera começa aqui uma seção sobre este tema tão amplo quanto atual. E é VOCÊ que vai ajudar a fazer este espaço! Mande suas perguntas, sugestões, críticas... não economize!

Perguntas, perguntas, perguntas... as dúvidas são muitas e diversas. E tantas outras vão aparecer. Por isso, aqui vão algumas que a galera têm. Para nos ajudar a respondê-las, contamos com o apoio do Dr. Renato Mussi, especialista em Adicção — a parte da Medicina que estuda a dependência química. Confira:

Afinal, o que é droga?
Álcool e cigarro são drogas? Por quê?
O que é a dependência?
Todo mundo que experimentar drogas ficará dependente?

Veja uma situação real — Entrevista

Esta palavra tem interpretações diferentes. Em geral, na Medicina, é toda substância que pode ser empregada com o fim de tratamento de doença. Mas, quando nos referimos ao contexto de Dependência Química, droga passa a ser qualquer substância psicoativa que, usada por qualquer via de administração (cigarro, pó, líquido, comprimido), altera o humor, o nível de percepção ou o funcionamento cerebral, seja perturbando-o, excitando ou deprimindo.

A droga é uma substância que provoca efeitos no funcionamento do cérebro e no estado psicológico. Pode deixar a pessoa confusa e "estranha" (efeito perturbador), muito agitada e animada (efeito excitante) ou triste e sem disposição (efeito depressor.)

Apesar de serem legalizados e o seu consumo liberado, o álcool e o cigarro são drogas sim — as chamadas drogas lícitas. Isto porque atuam no sistema nervoso, diminuindo a ansiedade e levando à sensação de euforia; além disso, podem levar à dependência.

Segundo a lei, somente maiores de 18 anos podem comprar cigarros e bebidas alcoólicas. Na prática, adolescentes e até crianças já fumam e bebem — imagina! Muitos têm a sensação de estarem mais relaxados, mais "soltos" e alegres, mas tudo não passa de impressão. Por trás deste aparente "bem-estar", esconde-se um mal silencioso mas destruidor — a dependência.

A dependência surge após os períodos de uso experimental, uso habitual e uso abusivo da substância psicoativa. Para que se manifeste, são fatores necessários a carga genética e o meio social. É uma doença evolutiva e crônica, isto é, que se desenvolve e se acentua com o tempo. Também começa lentamente (diz-se que é "de início insidioso").

Uso experimental: a pessoa prova a substância para "saber qual é", às vezes por curiosidade ou por influência da turma;

Uso habitual: o consumo passa a ser mais freqüente e segue uma rotina, apesar de a pessoa achar que "mantém o controle".

Uso abusivo: a substância se torna até mais importante do que o trabalho ou os relacionamentos, e a pessoa comete excessos — como ficar bêbado com freqüência, ou se isolar do convívio e consumir a droga descontroladamente.

A dependência se caracteriza pelo uso compulsivo. Quer dizer: o consumo continuado da droga que altera a mente se torna mais importante para o usuário do que os problemas causados pelo próprio consumo. Isto porque o uso atende às necessidades psicológicas, gerando um nível de bem-estar (prazer) ou diminuindo o desprazer. Ou porque, dependendo da droga, preenche necessidades físicas do organismo que já se habituou com o uso crônico da substância. Nesse caso, na falta da droga, o organismo pede e sente sua ausência e demonstra isso através de sintomas que vão desde sudorese (excesso de suor), tremor, diarréia até convulsões (ataques como os epilépticos). Isto é chamado de Síndrome de Abstinência. Como vimos, esta pode ser mais física ou psicológica, mas, na maioria das vezes, é uma mistura de ambas.

Nem todas as drogas dão sintomas físicos de abstinência, e as mais comuns são o álcool e os opióides (xaropes e heróina). Mas todas dão sintomas psicológicos tão intensos (irritabilidade, insônia, entre outros) que vêm acompanhados de sintomas secundários físicos e fisiológicos, como sudorese (suor excessivo) e diarréia.

Fulano, de 14 anos, não gostava de beber, mas como a galera insistia... Sem problemas, até porque ele agüentava bem, enquanto os outros passavam mal e pagavam mico. Mesmo tendo um tio alcoólatra e o pai que às vezes exagerava, ele não via nada de mais, porque só bebia no fim-de-semana. Mas, já na faculdade, o chopinho com os amigos era todo dia — e já começava na última aula, que era chata mesmo... O tempo passou sem novidades (fora algumas reprovações), até que chegou a formatura. Só que aí Fulano já não conseguia se concentrar, e acabou não recebendo o diploma. Foi quando a namorada falou "ou eu, ou a cerveja" que ele parou para pensar. Bem que conseguiu ficar um sábado sem beber, mas naquela noite não dormiu direito, ansioso, tremendo e suando muito. Nada como uma cervejinha para curar esta "frescura"... e no domingo bateu ponto no bar de novo.

Outro fator que define a dependência é a tolerância, que é uma habituação à droga, ou seja uma capacidade de suportar maiores doses da substância. Portanto, a pessoa passa a ter que usar maior quantidade para obter o mesmo prazer, ou para diminuir o desprazer (a irritação ou depressão, por exemplo).

A dependência se apresenta na história de vida das pessoas como uma sucessão de perdas ou mudanças nos comportamentos esperados, associada ao uso compulsivo de droga, sempre acompanhado de negação. As perdas mais comuns são as relacionais, espirituais, emocionais, psiquiátricas, físicas, escolares, profissionais e legais. Trocando em miúdos: a droga passa a ser indispensável na vida do usuário, e por isso ele começa a agir de forma diferente do que fazia antes (com agressividade ou isolamento, por exemplo). No entanto, não admite o problema, mesmo tendo dificuldades nos estudos e no trabalho, no relacionamento com a família e amigos, entre tantas outras.

 

Nem todas as pessoas que fazem uso de álcool ou drogas se tornam dependentes. No caso específico do álcool, o percentual mundial é de 10%, e o brasileiro, chega a 14%. A maioria não desenvolverá a dependência. É como em uma corrida: no início, muita gente começa usando experimentalmente. Do uso experimental para o uso habitual, um percentual pára. Uma grande parte usa habitualmente, e muitas vezes comete abusos, como "porres homéricos", que podem inclusive provocar acidentes de trânsito. Dessas pessoas, uma parte evolui para o quadro de dependência.

Dr. Renato Mussi usa a frase da psiquiatra Regina Mazur para definir a evolução para a dependência: " 'a dependência é uma lenta evolução do rosa para o vermelho'. Quando rosa é rosa, todo mundo sabe que é rosa, e assim também com o vermelho. Mas entre o rosa e o vermelho tem centenas de tonalidades de cor." Ele cita também uma situação clara e comum: "a pessoa que está trabalhando, fazendo e acontecendo, diz 'eu não tenho dependência'. Ela pode ser funcional, ou seja, levar sua vida aparentemente bem e não mostrar sintomas. Mas não sabe que está em evolução, que pode não estar apresentando os sintomas agora, mas daqui a 10 anos pode estar com a vida toda enrolada."

O especialista é direto: "todo mundo que usa cigarro sabe que pode ter câncer; mesmo a mulher de um tabagista, que é fumante involuntária, pode estar na lista de risco, em uma proporção maior que a mulher de um não fumante. Mas com a dependência química é estranho — todo mundo acha que pode usar, que com ele 'vai ser diferente'. O grande barato é fazer, sem afetações nem pedagogia do medo, a relação de que, se eu estou usando, então eu posso ser dependente. Não é uma questão de perda de controle só, é uma questão de tempo, uma questão de genética, de meio social, e uma questão de motivo — de esta droga estar sendo usada para tratar alguma coisa que está se passando com a pessoa, como algum problema emocional ou de relacionamento."

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