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   Prestação de cuidados em domicílio — o Home Care

Traduzindo ao pé da letra, Home Care significa "Cuidado em casa". Na realidade, trata-se de um tipo de assistência à saúde caracterizado pela prestação de serviços no local de residência das pessoas. Os estudiosos no assunto vêm discutindo este conceito há algum tempo, e ainda é possível encontrar divergências em alguns pontos. Mas o que importa é que este modelo assistencial extra-hospitalar tem hoje um papel significativo no nosso sistema de saúde. Segundo alguns autores, existem, na prática, pelo menos três modalidades de Home Care:

A internação ou hospitalização domiciliar

A assistência domiciliar

O atendimento domiciliar

   Hospitalização domiciliar

Esta modalidade tem por característica principal a transferência, para o domicílio, dos recursos empregados para os cuidados de um paciente em um hospital convencional, em circunstâncias ideais para a continuidade do tratamento sem perda de qualidade e efetividade.

Algumas circunstâncias têm contribuído para dificultar a caracterização exata da hospitalização domiciliar e para diferenciá-la de outras formas de assistência. Por um lado, a falta de conhecimento específico faz com que seja considerada por muitos como um programa experimental, sendo ainda pouco conhecida tanto pela população quanto pelo corpo médico em vários lugares. Por outro lado, observam-se concepções distintas que se têm em cada país, subjacentes a uma terminologia aparentemente semelhante. Desta forma, em países como França, Grã-Bretanha, Canadá, Suécia ou Itália, o termo "Hospitalização em domicílio" corresponde a um conceito semelhante ao espanhol (atención hospitalaria), enquanto que, nos EUA e Alemanha, os termos equivalentes abrangem tanto a assistência domiciliar primária quanto a hospitalização em domicílio.

No Brasil, esta discussão tem sido acompanhada pela academia, principalmente no que tange à terminologia utilizada. A USP criou recentemente um fórum de discussão para definir a homogeneização da linguagem, o que é um grande avanço. O surgimento de cursos de pós-graduação na área de enfermagem domiciliar, a exemplo da UFF (Universidade Federal Fluminense, em Niterói, RJ), também servirá de embasamento para a consolidação deste modelo.

De todas as definições existentes, a que está mais de acordo com nossa abordagem é aquela proposta pelos franceses: "A hospitalização em domicílio é uma alternativa assistencial da área de saúde, que consiste em um modelo de organização capaz de prover cuidados médicos e de enfermaria, de caráter hospitalar, qualitativa e quantitativamente, aos pacientes em suas casas, quando já não precisam de toda a infra-estrutura hospitalar, mas ainda requerem atenção e assistência completas".

A chave deste tipo de assistência é o domicílio, encarado em suas três dimensões: física (moradia e equipamento), psíquica (afeto, sentimentos e recordações) e social (família, vizinhos e amigos). Estes fatores podem exercer uma série de efeitos, diretos e indiretos, benéficos ao paciente, o que faz com que o lar em si possa ser considerado parte do "arsenal terapêutico"; caso reúna condições estruturais, higiênico-sanitárias, e proporcione uma convivência sócio-familiar agradável, podemos dizer que é o "melhor ambiente terapêutico".

Para os profissionais da área, o espaço do lar representa um verdadeiro desafio. A reação psicológica do enfermo e da família, muito mais forte no hospital, e a mudança dos papéis obrigam os profissionais a prestarem auxílio em circunstâncias nas quais são valorizadas não só as qualidades técnicas, já que vão ser cobrados aspectos como segurança, pontualidade, cortesia, capacidade de transmitir informações corretamente e de infundir esperança, conforme o caso.

   Princípios da hospitalização domiciliar

Continuidade de cuidados

Os recursos disponibilizados devem corresponder à necessidade do caso e não podem comprometer a qualidade da assistência prestada, uma vez estabelecido o processo de continuidade.

Respeito aos valores familiares

Os princípios éticos profissionais devem prevalecer na relação profissional família-paciente em respeito aos valores, hábitos e opiniões.

Caráter educativo

A prática dos cuidados deve contemplar aspectos educativos em seu processo, no sentido de envolver pessoas com pleno conhecimento e familiarizadas com os procedimentos. A comunicação permanente entre equipe e família facilita o processo de alta e suas implicações.

O não cumprimento dos princípios da hospitalização domiciliar ou uma interpretação inadequada dos mesmos podem acarretar certos riscos, que são resumidamente:

Superproteção aos pacientes, especialmente crônicos ou anciãos, criando grupos excessivamente "protegidos", com prejuízos à sua plena recuperação;

Duplicação da atenção, substituindo o cuidado ambulatorial (tanto da Assistência Primária como da Especializada): por "comodidade" para o paciente e até para os cuidadores, exames e serviços que poderiam ser feitos no hospital ou posto de saúde são levados até a casa do paciente, resultando em acomodação e dificuldade de ressocialização;

Prolongamento da hospitalização domiciliar, no caso de pacientes com forte componente social, isto é, que não contam com o apoio da família ou de responsáveis. Com isso, acabam por não receberem alta, quando necessitariam apenas de visitas domiciliares.

   Objetivos da hospitalização domiciliar

Melhorar o aproveitamento dos recursos hospitalares, ao permitir a diminuição do tempo de estadia, a não-internação ou até a reinternação; com isso, os leitos são mais rapidamente liberados para a utilização de outros pacientes, permitindo uma reorganização da oferta de serviços hospitalares;

Efetuar o atendimento no "melhor lugar terapêutico", de forma integral, personalizada e humanizada, ao mesmo tempo em que se aumentam no paciente a autonomia, a independência sócio-familiar e o cuidado pessoal;

Servir de "ponte" entre o hospital e a assistência ambulatorial, contribuindo para diminuir o isolamento e a falta de comunicação entre estes níveis;

Realizar a Educação para a Saúde, um objetivo que deve estar atrelado a qualquer projeto da área. A Hospitalização domiciliar tem a vantagem de poder implantar o processo educativo em um cenário singular — a casa do paciente—, onde é mais fácil promover, por meio de contato direto, a aquisição de conhecimentos e a modificação de hábitos e atitudes negativas, beneficiando as condições de saúde e de cuidados pessoais.

   Assistência domiciliar

Esta modalidade corresponde aos serviços prestados, em nível domiciliar, aos pacientes que já superaram a fase aguda do processo, mas ainda estão em situação clínica delicada, necessitando de atenção constante, e aos portadores de doença crônica que necessitem de cuidados específicos de baixa complexidade ou em caráter paliativo e/ou profilático, com característica de média duração e programação eletiva.

A Assistência domiciliar terapêutica consiste em:

acompanhamento e cuidados de enfermagem;
visitas médicas esporádicas;
fisioterapia motora e/ou respiratória;
controle nutricional;
psicoterapia e tratamento de feridas;
tratamento da dor e reabilitação;
educação para uso de próteses;
outros.

Já as atribuições da Assistência domiciliar profilática são:

controle de exames de rotina para doenças crônicas;
vacinação;
educação alimentar;
assistência ao idoso;
assistência ao deficiente físico;
outros.

   Atendimento domiciliar

Esta modalidade de Home Care se assemelha ao atendimento em nível ambulatorial, com o diferencial da realização em domicílio.

São atendimentos de curta duração com marcação prévia, como, por exemplo:

consultas profissionais e curativos;
pequenas suturas;
pequenos procedimentos;
exames de laboratório;
raios-X de tórax;
outros.

   Veja também
   
Histórico da Assistência Domiciliar Prestadores de serviços
Aspectos éticos Fornecedores
Guia ilustrado do cuidador Bibliografia
Guia para o cuidado do paciente com câncer  
   


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