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O
caminho da individuação é
psicológico, precisa do outro. O caminho
da inserção na comunidade é
social, precisa dos outros. Esses outros que
são simultaneamente companheiros e concorrentes,
que têm interesses genéricos comuns
e interesses particulares conflitantes. Para
aumentarmos a nossa força individual,
temos de repartir algo com os nossos concorrentes
(que são os nossos pares). Temos de entender
que nossos legítimos anseios em direção
a resultados, sejam eles quais forem, para serem
mais duradouros devem estar limitados pelas
forças da concorrência e daqueles
a quem servimos. Temos de aprender a repartir
para somar.
A
consciência de classe de nós médicos,
hospitais e laboratórios diversos traduz-se
em algo mais do que apenas potencializar interesses
particulares ou classistas. Serve a um propósito
muito mais importante e muito mais nobre. Serve
para fortalecermos os preceitos éticos
de nossa profissão lastrados que são
em servir, em primeiríssimo lugar, a
quem dela precisa. Nossa profissão transita
pelo comércio, mas dele não faz
o seu porto derradeiro. É muito pouco!
Precisamos de outro tipo de pão, o pão
do espírito, que pode se traduzir por
ciência, ensino, assistência, caridade.
Mais
do que simplesmente reclamarmos que nossas atividades
estão sendo aviltadas pela baixa remuneração
imposta por alguns intermediários da
saúde, devemos antes clamar contra a
desumanização e a mercantilização
que sofrem os pacientes à medida que
as normas clínicas se vergam às
imposições de normas financeiras.
Volto a insistir, não estou falando contra
as normas financeiras, elas são necessárias
e custaram muito a chegar à nossa atividade.
Quero sim é deixar claro que considero
a Medicina uma atividade essencialmente ética,
muito antes de ser comercial.
Esta
é a bandeira que devemos empunhar se
queremos ver a atividade médica novamente
considerada como uma atividade nobre, caritativa
(no sentido amplo), beneficente (idem), respeitada.
Esta é a bandeira que temos a obrigação
de fazer valer se acharmos que nossa missão
tem algum sentido maior do que ganhar alguns
trocados a mais. A grande revolução
que pode devolver à Medicina a dignidade
ora chamuscada é a revolução
ética, começando em nossa própria
casa, impondo-se no âmago de nossa própria
atividade e exigindo que todos aqueles que queiram
dela participar, todos aqueles aos quais ela
vai destinar parte de seus ganhos, que o façam
em troca de respeito a cada um dos pacientes
que acolhem na hora de angariar os fundos para
suas carteiras - esses pacientes sim, os únicos
pagantes do sistema.
O
momento de hoje parece a todos nós, médicos
e instituições de saúde,
inteiramente perdido. Há impotência
em nossas ações e potência
em nossas reclamações - muito
falamos e pouco fazemos. Estamos deixando de
perceber que ainda é possível
transformar nossos conhecimentos, nossas experiências
e nossas reivindicações em algo
maior do que cenhos franzidos em ante-salas
de auditores. Imaginamos estar (e de fato estamos,
se nada fizermos) em um caminho sem volta rumo
ao aviltamento, ao empobrecimento, ao desprestígio
de nossa classe e de nossa missão. Isso
acontecerá se aceitarmos que os nossos
ideais éticos, humanísticos e
sociais se curvem às metas descarnadas
das atividades financeiras. Elas são
legítimas desde que entendam que, na
área da saúde, estão sujeitas
a uma ética específica, sem a
qual a Medicina se transformaria em uma permanente
ameaça aos que a ela recorrem.
Estamos
vivendo um modismo que privilegia de maneira
quase absoluta um dos aspectos do tripé
que permeia a sociedade: a preocupação
social e a ação política
estão cada vez mais cedendo espaço
aos anseios econômicos. Há uma
"descoberta" no ar dizendo que o que
vale é o ganho financeiro. As conquistas
sociais estão sendo revistas e reduzidas
(às vezes de maneira correta, às
vezes de maneira desumana) em função
da necessidade do lucro das empresas, sejam
elas quais forem. Os conceitos clínico
ou filosófico do paciente não
costumam aparecer ou ter destaque nos vários
programas de administração em
saúde que estão surgindo em nosso
meio.
A
colaboração entre todos nós
do sistema de saúde é fundamental.
Nosso papel de médicos é importantíssimo.
Temos novas obrigações em relação
a parceiros, alguns ainda desconhecidos, que
estão aprendendo novas linguagens, seja
ela a linguagem Medicina, seja ela a linguagem
tropical, latina, brasileira. Mas não
podemos jamais esquecer que temos um compromisso
sagrado e consagrado de estarmos aqui para servirmos
em primeiríssimo lugar a nossos pacientes.
É para esse compromisso, mais nobre do
que simplesmente defender a nossa própria
classe, que considero a necessidade de nos conscientizarmos
da importância, para a própria
Medicina, da noção ora tão
diáfana de uma Consciência de Classe.
Ela é absolutamente necessária
para que, passando a fazer parte de um sistema
maior, não passe a ser a atividade médica
uma simples servidora e alimentadora da atividade
econômica.
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