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Campanha Social
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Luiz Roberto Londres
Luiz Roberto Londres

Consciência de Classe

Particulares e Universais, Privado e Público, Indivíduos e Comunidades, Anthropos e Ecclesia. Da Filosofia à Política à Sociedade à Mitologia. Somos tudo isso. Somos nós mesmos e fazemos parte de um todo maior que nos abrange e nos acolhe ou nos escorraça dependendo do nosso grau de indiferença ou de inserção nesse continente em que estamos mergulhados. Sim, pois nunca há, apesar de parecer, independência.

O caminho da individuação é psicológico, precisa do outro. O caminho da inserção na comunidade é social, precisa dos outros. Esses outros que são simultaneamente companheiros e concorrentes, que têm interesses genéricos comuns e interesses particulares conflitantes. Para aumentarmos a nossa força individual, temos de repartir algo com os nossos concorrentes (que são os nossos pares). Temos de entender que nossos legítimos anseios em direção a resultados, sejam eles quais forem, para serem mais duradouros devem estar limitados pelas forças da concorrência e daqueles a quem servimos. Temos de aprender a repartir para somar.

A consciência de classe de nós médicos, hospitais e laboratórios diversos traduz-se em algo mais do que apenas potencializar interesses particulares ou classistas. Serve a um propósito muito mais importante e muito mais nobre. Serve para fortalecermos os preceitos éticos de nossa profissão lastrados que são em servir, em primeiríssimo lugar, a quem dela precisa. Nossa profissão transita pelo comércio, mas dele não faz o seu porto derradeiro. É muito pouco! Precisamos de outro tipo de pão, o pão do espírito, que pode se traduzir por ciência, ensino, assistência, caridade.

Mais do que simplesmente reclamarmos que nossas atividades estão sendo aviltadas pela baixa remuneração imposta por alguns intermediários da saúde, devemos antes clamar contra a desumanização e a mercantilização que sofrem os pacientes à medida que as normas clínicas se vergam às imposições de normas financeiras. Volto a insistir, não estou falando contra as normas financeiras, elas são necessárias e custaram muito a chegar à nossa atividade. Quero sim é deixar claro que considero a Medicina uma atividade essencialmente ética, muito antes de ser comercial.

Esta é a bandeira que devemos empunhar se queremos ver a atividade médica novamente considerada como uma atividade nobre, caritativa (no sentido amplo), beneficente (idem), respeitada. Esta é a bandeira que temos a obrigação de fazer valer se acharmos que nossa missão tem algum sentido maior do que ganhar alguns trocados a mais. A grande revolução que pode devolver à Medicina a dignidade ora chamuscada é a revolução ética, começando em nossa própria casa, impondo-se no âmago de nossa própria atividade e exigindo que todos aqueles que queiram dela participar, todos aqueles aos quais ela vai destinar parte de seus ganhos, que o façam em troca de respeito a cada um dos pacientes que acolhem na hora de angariar os fundos para suas carteiras - esses pacientes sim, os únicos pagantes do sistema.

O momento de hoje parece a todos nós, médicos e instituições de saúde, inteiramente perdido. Há impotência em nossas ações e potência em nossas reclamações - muito falamos e pouco fazemos. Estamos deixando de perceber que ainda é possível transformar nossos conhecimentos, nossas experiências e nossas reivindicações em algo maior do que cenhos franzidos em ante-salas de auditores. Imaginamos estar (e de fato estamos, se nada fizermos) em um caminho sem volta rumo ao aviltamento, ao empobrecimento, ao desprestígio de nossa classe e de nossa missão. Isso acontecerá se aceitarmos que os nossos ideais éticos, humanísticos e sociais se curvem às metas descarnadas das atividades financeiras. Elas são legítimas desde que entendam que, na área da saúde, estão sujeitas a uma ética específica, sem a qual a Medicina se transformaria em uma permanente ameaça aos que a ela recorrem.

Estamos vivendo um modismo que privilegia de maneira quase absoluta um dos aspectos do tripé que permeia a sociedade: a preocupação social e a ação política estão cada vez mais cedendo espaço aos anseios econômicos. Há uma "descoberta" no ar dizendo que o que vale é o ganho financeiro. As conquistas sociais estão sendo revistas e reduzidas (às vezes de maneira correta, às vezes de maneira desumana) em função da necessidade do lucro das empresas, sejam elas quais forem. Os conceitos clínico ou filosófico do paciente não costumam aparecer ou ter destaque nos vários programas de administração em saúde que estão surgindo em nosso meio.

A colaboração entre todos nós do sistema de saúde é fundamental. Nosso papel de médicos é importantíssimo. Temos novas obrigações em relação a parceiros, alguns ainda desconhecidos, que estão aprendendo novas linguagens, seja ela a linguagem Medicina, seja ela a linguagem tropical, latina, brasileira. Mas não podemos jamais esquecer que temos um compromisso sagrado e consagrado de estarmos aqui para servirmos em primeiríssimo lugar a nossos pacientes. É para esse compromisso, mais nobre do que simplesmente defender a nossa própria classe, que considero a necessidade de nos conscientizarmos da importância, para a própria Medicina, da noção ora tão diáfana de uma Consciência de Classe. Ela é absolutamente necessária para que, passando a fazer parte de um sistema maior, não passe a ser a atividade médica uma simples servidora e alimentadora da atividade econômica.

*Dr. Luiz Roberto Londres é médico e diretor-presidente da Clínica São Vicente da Gávea 

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