Construindo imagens e sujeitos
Márcio
Pereira*
A
cada dia, todos os dias, ou minimamente três vezes
por semana, durante meses sem fim, continuar atrelados
a trabalhos físicos intensos. Erguer pesadas
cargas de barras de ferro, seguidamente, em movimentos
artificiais e repetitivos, sem que isto represente nenhum
ganho ou produtividade econômico-social. Permanecer
durante meses privado de comida e de bebida, ser mantido
com fome até ter dores agudas, e, em alguns casos,
até anemias de maior ou menor grau. Submeter-se
à possibilidade de todos os riscos que uma cirurgia
sempre possui e às conseqüências para
a saúde de forma geral, sem contar ainda as fortes
dores por mais de um mês, sem que nenhum mal físico
real merecedor de intervenção o solicitasse.
Enfim, estas poderiam ser penitências, condenações,
torturas ou desatinos de loucos, perversos, sádicos
ou masoquistas, mas, na verdade, este é o cotidiano
e a rotina de muitas pessoas em academias, dietas, cirurgias
plásticas e outras tantas receitas para o corpo
perfeito. Emerge então uma questão: por
que a maioria das pessoas está presa a isto sem
perceber?
Natural
pensarmos que o evento humano se desdobra em um percurso
histórico e cultural que se constrói e
se modela assim na estética e na partilha social
de um desejado. Mais ainda: se quisermos, com um rápido
olhar na história, perceberemos o quanto o que
vivemos como a atual estética é profundamente
recente e mutável ao longo dos tempos. Contudo,
o que nos chama mais atenção é
por que, em nenhum momento histórico, valorizou-se
tanto o corpo em detrimento de tantos outros atributos
constitutivos do ser humano.
As
diversas mídias nos pressionam nas diversas formas
e horários, e com programas e produtos se multiplicando
para "atender" às mais variadas faixas
etárias, mencionando a estética como o
rumo único da felicidade. Questionários
do tipo "Você prefere o turbinado ou o natural?",
ou "Eleições de pernas (e todas as
outras PARTES do corpo) mais bonitas do Brasil"
vão e voltam das formas mais repetitivas e mal
disfarçadas possíveis. O conteúdo
é sempre o mesmo - o corpo. E, seja fragmentando
as nossas partes, como em um açougue, seja separando
o corpo da mente, estamos mais cartesianos do que imaginamos
e nos percebemos cada vez mais de forma fragmentária.
A
ciência, antenada com seu tempo, e com o mercado
de consumo, corrobora emprestando validade ou a produtos
que alimentem as indústrias farmacêuticas,
ou a formas de viver que teoricamente seriam mais saudáveis,
ou mesmo com pesquisas sem fim sobre o que "pode"
ou o que "não pode" ser feito para
ser feliz. O mercado profissional, por exemplo, discrimina
não só o diferente racialmente ou o deficiente
físico; ele afasta qualquer diferente do "padrão
do belo", seja o obeso, o "idoso" (que
também tem sofrido com estas ditaduras), o feio
etc. O sucesso, cada vez mais indispensável,
já não é só ser rico e poderoso
como na década passada. Neste momento, é
necessário ser belo; sustenta-se sem perceber
o ditado popular que vaticina "nunca vi rico feio".
Cada parcela de nossas culturas e sociedades, cada um
de nós, de forma mais ou menos rígida,
tudo e todos estão amarrados a tais padrões.
Nossos
frágeis e atuais padrões de beleza oscilam
entre o reto, esquálido, faminto e o "sarado",
com muitas curvas e turbinado. Mesmo os artistas que
vivem da venda de sua imagem, dos personagens e fantasias
que edificam, já não estão conseguindo
lidar com isso ou suportar tal peso. São freqüentes
aqueles que se apressam em tentar fugir da criação
das suas imagens de "mulherão", "deusa",
"sensual", querendo afirmar-se como "apenas
uma mulher comum" ou "a mesma menina de sempre".
De qualquer forma, continuam, algumas vezes sem perceber,
contribuindo para o forjar da artificialidade e do não
humano. Repetem e induzem à reprodução
sem perceber que fixam os pólos onde sobretudo
a mulher sofre com imagens estereotípicas em
pêndulo - tudo ou nada, preto ou branco, imagem
de infante inocentemente sexualizada e fragilizada ou
poderosa deusa Afrodite de sedução e consumo.
Quero enfatizar aqui a obviedade de que o humano e sua
subjetividade em nenhuma das duas extremidades ou pólos
se encontram. Suas cores, formas, texturas, o seu proprium
e nuances não podem ser esgotados nos atuais
padrões bipolares e nas ditaduras que agora se
impõem.
Nesta perda de parâmetros realmente humanos e
realistas, consultórios psicológicos se
enchem de pessoas reaprendendo a viver e a encontrar
a sua real felicidade e realização. Anorexia,
bulimia, síndromes do pânico (por vezes
inconscientemente frutos do medo de expor o diferente
que somos), conversões histéricas, ansiedades,
angústias, medos e toda sorte de dores psicológicas
e afetivas frente à convivência e ao relacionamento
estão aumentando. Assim sendo, o que se vê
é um ser assustado e acuado diante do outro,
um ser que está sempre desconhecendo e repudiando
sua imagem no espelho, um ser que estranha o seu desejo,
suas idéias, seu corpo e sua realidade no mundo;
um ser no qual a imagem fala mais do que mil palavras,
ou mesmo do que todas as suas palavras (mesmo esta imagem
não sendo propriamente sua); um ser que vive
torturas e a falta da felicidade muitas vezes em nome
da ditadura do corpóreo; enfim, um ser que, pretendendo
tornar-se humano e animal social, tem vivido padrões
desumanos, e não pode conseguir relacionar-se.
Desta forma, um ser humano, quando se permite ser capturado
na armadilha deste padrão, não pode ser
feliz.
*Psicólogo
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