Administrar
a escassez ou rever modelos? Um convite à
reflexão
Este é
talvez o mais complicado momento das relações
institucionais em nosso sistema de saúde.
Os avanços na regulamentação
do sistema de financiamento privado não repercutiram
em sua estruturação operacional, e
o sistema vive momentos dramáticos sob vários
aspectos na prática de sua assistência.
Nenhum dos atores envolvidos — sociedade,
serviços, prestadores e financiadores —
se sente confortável no cenário atual.
Entendemos que organizar um sistema de saúde
significa realizar uma "montagem" com
peças específicas - serviços,
governo, prestadores, financiadores, usuários.
Esta montagem deve respeitar um certo número
de condições pré-definidas
pela sociedade: atendimento das necessidades, acesso
do maior número de pessoas aos serviços,
solidariedade, respeito ao equilíbrio financeiro,
eqüidade, princípios éticos etc.
O estudo das nuances e características deste
sistema é uma tarefa complexa, não
é nada fácil. O conhecimento de suas
operações administrativas fundamentais
exige não só a teoria econômica,
a teoria dos contratos, o direito do consumidor,
mas apela a variáveis conjunturais em cenários
incertos vividos nos dias atuais. Um estudo multifacetado,
sem dúvida. Certo é que vivemos o
problema, e precisamos nos dar conta de que a escassez
é uma conseqüência de modelos
instituídos, e com resultados ruins para
todos os envolvidos. Ora, se por um lado precisamos
administrar a escassez — conviver melhor com
ela? —, por outro precisamos pensar em outros
rumos que nos desviem dela, para que possamos vislumbrar
novos modelos. Precisamos pensar, reformular, remodelar.
A oportunidade de isto acontecer por vezes está
na nossa frente, e pouco percebemos. Considerando
a conjuntura atual, e numa ação reflexa,
passei a torcer (e a acreditar nisso!) por uma frente
ampla de pensamento estratégico e pessoas
engajadas em propostas de reformas capazes de mobilizar
estruturas institucionais num grande movimento nacional.
Em nossa leitura, rever a "montagem" significa
reunir as peças e redefinir suas participações
e responsabilidades. Penso que o convívio
com a escassez pode gerar uma acomodação
doentia e o fim da percepção de soluções.
Espero que as preocupações aflorem
com a reflexão coletiva, e que as idéias
fluam. A expectativa é acontecer algo de
entusiasmador, não que seja esperança
das simples, mas um impulso para o nosso sentimento
de indignação tão inerte ultimamente.
Que as instituições representativas
e legitimadas pela sociedade façam seu papel
facilitador, e que os líderes surjam no processo
com ampla visão para novos momentos.
Antes da crítica dos incautos: não,
este não é um discurso saudosista
de mobilização de massa, tão
pouco um levante inconseqüente e vazio em seus
propósitos. Mais do que isso. Estamos falando
da sobrevivência do mercado de saúde.
E, quando falamos em mercado, falamos em forças
econômicas, empregos e relações
institucionais que dependem da sua existência.
Estamos falando da garantia de direitos. Estamos
falando da sobrevivência de um setor social.
Hoje não bastam medidas de controle dos custos.
É preciso se pensar e projetar o futuro de
um modelo assistencial que contemple a complexidade
destas relações, para que a sociedade
não sofra seqüelas por um dia ter tido
de administrar a escassez e conviver com o arrependimento
de não ter mudado.