Psicoterrorismo quebra hegemonia americana
Por Augusto Morais

Ana Szapiro
Diante dos últimos acontecimentos que modificaram o cenário mundial, no momento em que os Estados Unidos sofreram vários atentados terroristas, gerou-se um misto de insegurança, ódio, desejo de vingança e medo. A população daquele país e de seus aliados passou a acompanhar cada passo do caso EUA x Afeganistão. Para entender melhor o clima de tensão que paira sobre muitas pessoas, o site HOSPITALGERAL.com procurou uma especialista no assunto.
A psicóloga, psicanalista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dra. Ana Maria Szapiro, revelou que a destruição de símbolos nacionais norte-americanos e a quebra da hegemonia são uma situação nova para a população daquele país.

Os Estados Unidos estão vivendo um clima de paranóia?

De alguma forma as pessoas acham que podem ser atacadas a qualquer momento, e isto pode se colocar no cotidiano de modo a criar o que costumamos chamar de "clima de paranóia". Os ataques bioterroristas, que vieram logo após os atentados aos grandes símbolos americanos — WTC e Pentágono — têm provocado um grande impacto nas pessoas. Podemos nos sentir desprotegidos, e isso gera medo. É uma situação nova para os americanos e para o mundo todo. Talvez não seja tão nova assim para aqueles povos que vivem sob guerras desde sempre...

Como se dá o medo?

Ele faz parte da vida do homem. Mudamos nossos medos, de acordo com o momento da nossa História, do processo civilizatório. No passado o homem temia a natureza, não podia e, aliás, nem pensava que deveria controlá-la. Então tinha medo dos deuses no politeísmo, medo de um Deus no monoteísmo. Na época das grandes epidemias, o homem via nelas alguma forma poderosa de manifestação da natureza contra a qual ele se achava impotente para lutar. O homem interpretava aquela devastação com os instrumentos de pensamento que possuía: as epidemias eram uma espécie de "castigo" sobre a humanidade! Com o advento da ciência, foi possível pôr fim às epidemias, conhecer suas causas, prever, tratar, curar... Isto mudou nossa forma de pensar sobre a natureza e sobre nós mesmos. Mudaram, também, os nossos medos...

E quando a situação é inesperada?

O medo surge no momento em que perdemos o controle sobre uma dada situação. O "não saber o que fazer" e ter que lidar com o desconhecido é o que gera o medo. Hoje aprendemos a conviver com a idéia de que nossa sociedade pode controlar tudo, ou quase tudo. E quando algo nos escapa, não sabemos o que fazer, temos medo, nos descobrimos frágeis. Mas é o medo que ajuda a nos defendermos do perigo, a nos colocarmos em alerta.

Como a ciência agiu na modificação da maneira de pensar do homem?

A sociedade sempre procurou e construiu respostas para os seus problemas. Assim sobrevivemos. Com o fim da Idade Média, o homem pôde buscar na ciência, numa forma de conhecimento laico, a "verdade" das coisas. Nós acreditamos na ciência e acreditamos que, através dela, podemos ter respostas às perguntas que fazemos. Com o conhecimento científico pudemos melhorar a qualidade e a expectativa de vida, controlar doenças, etc...

Pode-se dizer que a ciência também prejudica o homem?

O homem sempre faz escolhas, e todas elas têm um ônus. Todo esse conhecimento adquirido, ao mesmo tempo em que produz felicidade, bem-estar e alimenta nossa crença no poder que temos através do conhecimento e da razão, também produz problemas para o homem. A questão é que não ficamos pensando a cada momento qual é verdadeiramente o preço que vamos pagar por nossas escolhas... E também não queremos abrir mão de algumas conquistas muito caras à humanidade. A idéia de que sempre estamos "progredindo" fascina o homem do nosso tempo. Embora saibamos dos perigos que, potencialmente, nossas próprias conquistas possam nos trazer, nós nos defendemos de pensar sobre isto...

E no caso dos Estados Unidos?

O bioterrorismo é o uso, para fins terroristas, de um conhecimento que foi produzido pelo homem, pela ciência. É o conhecimento sendo utilizado para destruir. Isto mostra ao homem que algo está fora de seu controle. No caso dos EUA, os americanos parecem temer o uso de todo um conhecimento produzido, inclusive no campo da biogenética. O que acontecerá conosco agora? Esta é a pergunta que os americanos se fazem. O uso das bandeiras de modo tão intenso é uma tentativa de dizer: "somos fortes e vamos vencer!" E o país tenta construir suas defesas. As pessoas temem a qualquer momento a explosão de uma bomba, de um avião, uma carta com antraz... Claro, de alguma forma nós todos sempre sabemos que podemos ser atacados, mas ninguém fica pensando nisto o tempo todo. Este é o problema. Em situações como esta, um país passa a pensar todo o tempo sobre isto, a ter que se defender de perigos que são provavelmente desconhecidos, pelo menos neste momento.

A senhora acredita que os brasileiros estão temerosos com a possibilidade de o bioterrorismo fazer vítimas no país, como nos Estados Unidos, onde algumas pessoas morreram contaminadas pela bactéria causadora do antraz?

No Brasil, só algum segmento da classe média, muito identificado com o imaginário americano, está realmente preocupado em ser atacado da mesma forma. É só uma questão de identificação. Nossos problemas nos levam a ter outros medos; não temos antraz, mas temos balas perdidas, seqüestros, convivemos diariamente com a violência nos grandes centros urbanos. Desenvolvemos outros medos, portanto.


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