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Psicoterrorismo
quebra hegemonia americana
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Diante
dos últimos acontecimentos que modificaram o cenário mundial, no momento
em que os Estados Unidos sofreram vários atentados terroristas, gerou-se
um misto de insegurança, ódio, desejo de vingança e medo. A população
daquele país e de seus aliados passou a acompanhar cada passo do caso
EUA x Afeganistão. Para entender melhor o clima de tensão que paira
sobre muitas pessoas, o site HOSPITALGERAL.com procurou uma especialista
no assunto. |
A
psicóloga, psicanalista e professora da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, dra. Ana Maria Szapiro, revelou que a destruição de símbolos
nacionais norte-americanos e a quebra da hegemonia são uma situação
nova para a população daquele país.
Os Estados
Unidos estão vivendo um clima de paranóia?
De alguma forma as pessoas acham que podem ser atacadas a qualquer
momento, e isto pode se colocar no cotidiano de modo a criar o que
costumamos chamar de "clima de paranóia". Os ataques bioterroristas,
que vieram logo após os atentados aos grandes símbolos americanos
WTC e Pentágono têm provocado um grande impacto nas
pessoas. Podemos nos sentir desprotegidos, e isso gera medo. É uma
situação nova para os americanos e para o mundo todo. Talvez não seja
tão nova assim para aqueles povos que vivem sob guerras desde sempre...
Como se
dá o medo?
Ele faz parte da vida do homem. Mudamos nossos medos, de acordo com
o momento da nossa História, do processo civilizatório. No passado
o homem temia a natureza, não podia e, aliás, nem pensava que deveria
controlá-la. Então tinha medo dos deuses no politeísmo, medo de um
Deus no monoteísmo. Na época das grandes epidemias, o homem via nelas
alguma forma poderosa de manifestação da natureza contra a qual ele
se achava impotente para lutar. O homem interpretava aquela devastação
com os instrumentos de pensamento que possuía: as epidemias eram uma
espécie de "castigo" sobre a humanidade! Com o advento da ciência,
foi possível pôr fim às epidemias, conhecer suas causas, prever, tratar,
curar... Isto mudou nossa forma de pensar sobre a natureza e sobre
nós mesmos. Mudaram, também, os nossos medos...
E quando
a situação é inesperada?
O medo surge no momento em que perdemos o controle sobre uma dada
situação. O "não saber o que fazer" e ter que lidar com o desconhecido
é o que gera o medo. Hoje aprendemos a conviver com a idéia de que
nossa sociedade pode controlar tudo, ou quase tudo. E quando algo
nos escapa, não sabemos o que fazer, temos medo, nos descobrimos frágeis.
Mas é o medo que ajuda a nos defendermos do perigo, a nos colocarmos
em alerta.
Como a
ciência agiu na modificação da maneira de pensar do homem?
A sociedade sempre procurou e construiu respostas para os seus problemas.
Assim sobrevivemos. Com o fim da Idade Média, o homem pôde buscar
na ciência, numa forma de conhecimento laico, a "verdade" das coisas.
Nós acreditamos na ciência e acreditamos que, através dela, podemos
ter respostas às perguntas que fazemos. Com o conhecimento científico
pudemos melhorar a qualidade e a expectativa de vida, controlar doenças,
etc...
Pode-se
dizer que a ciência também prejudica o homem?
O homem sempre faz escolhas, e todas elas têm um ônus. Todo esse conhecimento
adquirido, ao mesmo tempo em que produz felicidade, bem-estar e alimenta
nossa crença no poder que temos através do conhecimento e da razão,
também produz problemas para o homem. A questão é que não ficamos
pensando a cada momento qual é verdadeiramente o preço que vamos pagar
por nossas escolhas... E também não queremos abrir mão de algumas
conquistas muito caras à humanidade. A idéia de que sempre estamos
"progredindo" fascina o homem do nosso tempo. Embora saibamos dos
perigos que, potencialmente, nossas próprias conquistas possam nos
trazer, nós nos defendemos de pensar sobre isto...
E no caso
dos Estados Unidos?
O bioterrorismo é o uso, para fins terroristas, de um conhecimento
que foi produzido pelo homem, pela ciência. É o conhecimento sendo
utilizado para destruir. Isto mostra ao homem que algo está fora de
seu controle. No caso dos EUA, os americanos parecem temer o uso de
todo um conhecimento produzido, inclusive no campo da biogenética.
O que acontecerá conosco agora? Esta é a pergunta que os americanos
se fazem. O uso das bandeiras de modo tão intenso é uma tentativa
de dizer: "somos fortes e vamos vencer!" E o país tenta construir
suas defesas. As pessoas temem a qualquer momento a explosão de uma
bomba, de um avião, uma carta com antraz... Claro, de alguma forma
nós todos sempre sabemos que podemos ser atacados, mas ninguém fica
pensando nisto o tempo todo. Este é o problema. Em situações como
esta, um país passa a pensar todo o tempo sobre isto, a ter que se
defender de perigos que são provavelmente desconhecidos, pelo menos
neste momento.
A senhora
acredita que os brasileiros estão temerosos com a possibilidade de
o bioterrorismo fazer vítimas no país, como nos Estados Unidos, onde
algumas pessoas morreram contaminadas pela bactéria causadora do antraz?
No Brasil, só algum segmento da classe média, muito identificado
com o imaginário americano, está realmente preocupado em ser atacado
da mesma forma. É só uma questão de identificação. Nossos problemas
nos levam a ter outros medos; não temos antraz, mas temos balas perdidas,
seqüestros, convivemos diariamente com a violência nos grandes centros
urbanos. Desenvolvemos outros medos, portanto. |
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