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No
Brasil existem Planos de Doença
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Você
acaba de decidir que quer fazer um seguro para o seu automóvel.
Recorre a um corretor de seguros para obter informações
a respeito. Este lhe informa o preço, depois de fazer algumas
poucas perguntas. Você fica perplexo e questiona sobre a possibilidade
de existirem reduções no prêmio em função
do seu ótimo histórico. |
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Ele responde que não existe qualquer variável adicional
além da faixa etária. Aspectos como o seu bom histórico
como condutor, verificado através da comprovação
de que jamais utilizou o seguro anteriormente, bemcomo a inexistência
de multas em seu cadastro não farão diferenças.
Aliás, pouco importam também as condições
gerais de uso do seu automóvel; se existem avarias, se as peças
e sistemas estão em perfeito estado e lhe garantindo a segurança
necessária, se o mesmo é estacionado em local seguro
em casa e no trabalho, bem como a comprovação de que
foram feitas as revisões previstas no Manual do Condutor. |
Verificando a sua hesitação em relação
ao produto oferecido, o corretor habilmente passa a lhe vender algumas
vantagens adicionais, tais como: a ausência de franquias e limites
máximos de cobertura, bem como a inexistência de acréscimos
em anos seguintes por conta de eventos passados. |
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Antes de tomar uma decisão, você pensa um pouco, reflete
sobre a variedade de "facilidades" que ele acaba de lhe
oferecer. Por um instante, se recorda ainda da recente e maravilhosa
propaganda que assistiu na televisão dias antes, onde são
mostradas as fantásticas instalações e o aparato
tecnológico de uma determinada oficina que você pode
vir a usar. Tudo isto, sem muitas dificuldades, barreiras e/ou co-responsabilidades,
conforme você acabara de ser informado. O negócio é
fechado.
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O texto acima deve ter lhe parecido bastante estranho. Você
talvez tenha lido o texto mais de uma vez, buscando sua compreensão.
Afinal, a compra de um seguro de carro nos moldes relatados é
muito diferente daquela a que você está habituado. Na
realidade, não estamos falando de um seguro de carro. Tampouco
se trata de uma estória surreal. Estamos apenas transportando
para a realidade da compra de um seguro de carro (experiência
já vivida por uma parcela significativa de leitores) aquilo
que de fato acontece quando compramos um plano de saúde. Ou
melhor, um plano de doença. |
Pense agora no seu plano de saúde: que benefícios, financeiros
e não financeiros, este lhe oferece para que você se
mantenha saudável (não estamos considerando aqui a aparentemente
óbvia premissa de que todos têm interesse intrínseco
em se manterem saudáveis) ? Não é preciso pensar
muito para concluir que não existe na estruturação
atual dos planos de saúde qualquer incentivo, com ou sem premiação/bonificação
para aquele que se mantém saudável. Diferentemente do
seguro de carro, onde são levadas em consideração
algumas características (idade, sexo, histórico, região,
existência ou não de estacionamento, etc.) no momento
da precificação, os planos de saúde não
têm qualquer previsão neste sentido. Não levam
em consideração variáveis absolutamente voluntárias
que estatisticamente elevam ou reduzem a probabilidade de um evento
e/ou intercorrência e, conseqüentemente, o custo da assistência.
Ao não diferenciar o fumante do não fumante, o sedentário
do esportista, o boêmio do abstêmio ou bebedor moderado,
deixa de premiar e conseqüentemente, promover a saúde.
A ausência de incentivos que premeiem aquele que procura se
manter saudável caracteriza a afirmação de que
os planos não são efetivamente planos de saúde. |
Podemos ampliar ainda mais este raciocínio e pensar em termos
de serviços. Por que não criar convênios entre
planos de saúde e academias de ginástica, onde haveria
descontos para o conveniado que realiza atividades físicas
com freqüência? Por que não incentivar campanhas
de vacinação onde haveria não só uma redução
no custo das vacinas através de um convênio com clínicas
de vacinação, mas também a bonificação
posterior daqueles que efetivamente aderiram às vacinações
recomendadas? Em suma, por que não pensar em um sistema de
pontuação, onde questões com as citadas acima
e outras tantas fossem consideradas formas de "fidelização
à saúde"? Novamente, vemos aqui que a atuação
dos planos de saúde se restringe basicamente a atos de doença,
e não de saúde. |
Aproveitando o gancho das campanhas acima citadas, passemos à
questão das propagandas televisivas e outras formas atuais
de divulgação dos planos de saúde a seus clientes.
O que vemos quando o assunto é plano de saúde são,
em sua grande maioria, propagandas que abordam aspectos relacionados
a situações de doenças. É exatamente isto
o que se "vende" ao inconsciente coletivo do consumidor,
com a divulgação freqüente da apaixonante tecnologia
médica, das instalações arquitetônicas
de hospitais e das ambulâncias e helicópteros "hollywoodianos."
Com propagandas como estas, não só se deixa de promover
a saúde como acaba se incentivando a utilização
pouco criteriosa de tecnologias e estruturas médico-hospitalares.
Isto tudo se reflete na falsa ilusão por parte de um número
significativo de consumidores de que a boa Medicina é aquela
na qual existe a execução de exames, procedimentos e
intervenções. Faltam informações e orientações.
O que se cria na prática é uma grande distorção
que gera o aumento do uso dos serviços de saúde, ao
invés da promoção à saúde. |
A questão dos planos de doença não se esgota
no fato de não se premiar a saúde. Existem ainda falhas
"estruturais" nos incentivos dos planos que contribuem para
esta mesma doença. Diferentemente da franquia no caso de seguro
de carro, ainda vemos, na área da saúde, pouquíssimos
incentivos como a co-participação. A ausência
de participação do paciente nos atos médicos,
dando direito ao atendimento sem nenhum pagamento direto traz a falsa
ilusão de que ele não paga esta conta. Mecanismos como
a co-participação são eficazes na medida que
trazem um maior critério de utilização de serviços
por parte dos pacientes, desencorajam a freqüência excessiva
de consultas e realização desnecessária de exames
e, conseqüentemente, podem contribuir para a posterior redução
de prêmios. A co-participação elimina, portanto,
um dos sintomas da doença dos planos de saúde. |
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Seja pelo fato de não promoverem a saúde, de divulgarem
apenas aspectos associados à doença, e/ou pelos sintomas
gerados por falhas na estruturação de seus produtos,
podemos dizer que os planos de saúde ainda são, em
nosso país, planos de doença.
Cabe ressaltar
que os planos têm um papel fundamental e indispensável
no sistema de saúde privado, havendo proporcionado, em pouco
espaço de tempo, a democratização do acesso
à saúde privada. O que tratamos aqui foram apenas
alguns aspectos a respeito de prováveis mudanças que
se fazem necessárias. Abordamos apenas os desvios que podem
e devem ser corrigidos. Todavia, a solução para o
sistema de saúde não se esgota nestas questões.
Embora não tenha sido o foco desta exposição,
seria irresponsável de nossa parte deixar de citar que os
demais participantes do sistema também contribuem significativamente
para a sua enfermidade. Médicos, provedores de serviços
de saúde (hospitais, clínicas e laboratórios),
governo e pacientes também precisam se conscientizar de que
os desvios que também ocorrem no exercício de suas
atividades contribuem para o cenário atual de doença
do sistema. A doença não é apenas dos planos.
É do sistema como um todo.
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Artigo
publicado na "Revista Pró-Consumidor" (dezembro
2000)
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