De médico e louco todo mundo tem um pouco
— O PSICOTERRORISMO —
Por Carlos Hiran Goes de Souza

Nestes últimos dias temos vivido momentos impressionantes de dejà vu. Se o cinema americano não mostrou em algum filme de suas aventuras, com certeza já vivemos nos países da América latina ou mesmo em nossas casas.

O presidente Bush fala de um confronto do bem contra o mal num tom folhetinesco que nos remete às mais antigas revistas de aventuras, e temos a sensação que ele ou quem sabe um deles se transformará, a qualquer grito de shazam ou coisa parecida, num daqueles saudosos super heróis. Ou melhor, teremos um daqueles super heróis remixados, com poderes inimagináveis, armado inclusive entre os dentes. Impressionante por seu poder, ele pode dominar o mundo e acabar com o inimigo simplesmente exterminando-o. Tive uma sensação de ameaça no ar. O presidente dos Estados Unidos precisava ameaçar quem nos ameaçava. Era o mínimo antes dos bombardeios. Faz parte das estratégias de guerra criar esta expectativa de avanço impiedoso da força sobre quem não obedece a ordens. É uma estratégia a geração do medo, do inusitado, do ataque inesperado. São uma estratégia os ataques psicológicos. A mídia nestes casos vira uma arma poderosa. Vimos isso algumas vezes pelo mundo a fora. A tortura psicológica nos é bastante conhecida.

Interessante neste confronto são os antagonismos. Se de um lado temos a opressão econômica e da tecnologia bélica usando uma das categorias de terror através de seus líderes, de outro nos deparamos com oprimidos de entendimento radical de vida e religião, sabem-se Deus suas razões, usando também o terror na sua categoria mais primitiva através de seus líderes, cuja capacitação na arte de usar o terror como arma advém dos primeiros.

A necessidade faz o homem.

Estratégias antagônicas. Vemos dois órgãos de inteligência em duas esferas de atuação com instrumentos e táticas diferenciadas atingindo seus alvos. De um lado, alvos bem definidos com riscos de erros pequenos e até calculados. De outro, alvos bem definidos porém sem o risco calculado. Estamos falando de antagonismos. Do lado high tech temos máquinas de precisão fantástica à frente de homens enfurecidos usando a lógica, a lei e a razão. Do outro temos, homens enfurecidos com profunda emoção sem máquinas usando a perspicácia e o senso criativo na luta por sua causa. Radicalismos à parte, vemos uma luta travada entre inteligências. Quem usa melhor o quê? Fato é que nas armas psicológicas está claro quem está usando melhor. Resta saber se teremos como sair desta. Resta saber se nossos superpoderes dão conta de uma paranóia globalizada.

Os mais radicais pacíficos podem até achar que foi tudo manobra da indústria farmacêutica. Que esta indústria está financiando os talibãs ou quem sejam os psicoterroristas para vender mais antibiótico. Não sei. Tudo está valendo agora. Até pensar que os psiquiatras e psicoterapeutas ganharam um espaço imenso no mercado.

A guerra tem destas coisas. A medicina sempre evoluiu com as guerras. O complexo médico industrial norte americano cresceu nos pós-guerras. Acredito que a robótica esteja sendo testada neste momento. Novos métodos de esterilização química e mecânica podem surgir aperfeiçoados destes confrontos. Novos modelos de investigação e intervenção psicológica podem surgir a partir dos últimos fatos. A nutrição e a indústria alimentícia com certeza terão novidades. E por aí vamos caminhando nos antagonismos. O pânico causado pelo bioterrorismo não é maior que o pânico de um trabalhador cuja maior ameaça é o pavor de perder um emprego. Não é maior que o pânico dos povos africanos e suas epidemias. Não é maior que o pânico do assalto num sinal de trânsito no Rio. Impressionante esta sensação de dejà vu.

O psicoterror tem várias faces. Várias formas de apavorar, de oprimir, de ameaçar e de nos deixar sem ação. Sempre foi assim. A diferença é que ele provocou o poder mundial e deixou bem claro que ele existe também para os poderosos que sempre o tiveram como instrumento, mas que desconheciam seus efeitos.

Não bastassem nossas tuberculoses, malárias, dengues hemorrágicas, agora esta aí o Antraz atrás de nós. Apavorando-nos um pouco mais, só um pouco. Nós que já temos tantos traumas psicológicos por não resolver estas coisinhas de mosquitos e água temos que sentar no divã igualzinho ao mundo inteiro. Diferentes são os loucos. Uns são do bem outros são do mal. Difícil é distingui-los.

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